Mais um volume desta série de livros do conhecido astrólogo Paulo Cardoso, publicado pela editora Livros d'Hoje. Este é dedicado a 2010.
Aproveitamos para aqui reproduzir um trecho de uma das obras anteriores:
[...] O mundo da Lua
Não é novidade para ninguém que vivemos numa sociedade solar, individualista, egocêntrica, voltada para o brilho, para o poder e para a exibição do eu. Alguns dos factores mais enaltecidos e insistentemente publicitados à nossa volta são a beleza, a juventude, a inteligência ou o dinheiro. Embora a linguagem utilizada por todo o lado neste nosso mundo ocidental contenha termos e situações que a Astrologia remete tradicionalmente para o universo da Lua — tais como protecção, família, descanso, fantasia, emoção —, continuam a ser aqueles valores que a Astrologia classifica como solares (baseados no ego ou no seu poder) que são apontados como o objectivo a alcançar.
Quem conhece a filosofia astrológica e os seus símbolos constata que existe aqui uma espécie de equívoco, uma certa inversão de valores, ou, pelo menos, alguma confusão, intencional ou não, por parte das entidades que fomentam esta sociedade de consumo.
Nos últimos tempos até já os bancos vendem produtos financeiros com factor anti-stress, os fabricantes de automóveis disponibilizam liberdade, os cosméticos prometem paixão e sensualidade, as bebidas alcoólicas proporcionam envolvimentos tórridos, os cigarros trazem consigo inesquecíveis momentos de prazer e algumas instituições, através dos seus produtos, «oferecem» paz, amor e tranquilidade.
Vivemos num tempo em que os rótulos das embalagens de alguns dos alimentos que consumimos afirmam peremptoriamente não ter colesterol (mesmo aqueles que já não o tinham...) e até os detergentes «pensam em nós», pois nos protegem contra aquelas malditas bactérias que intentam contra a nossa existência. Como se isto não nos bastasse, oh!... suprema graça!, estes mesmos produtos químicos acabam por proteger aqueles seres que mais amamos: os nossos filhos.
Hoje em dia já não há praticamente preparado nenhum, quer ele tenha sido feito para nós ingerirmos quer para a limpeza do nosso lar, que não contenha alguns «extractos naturais de plantas», plantas essas tão nossas amigas que, além da beleza e harmonia que nos proporcionam, também estão sempre disponíveis para nos ajudarem na feroz luta contra os germes, os maus odores, enfim, contra o MAL.
Isto para não falar nas seguradoras ou outras instituições que zelam sem descanso pela nossa infância, pelos estudos dos nossos jovens, pela nossa saúde (... tal como se tivéssemos uma família de médicos...), pelo nosso trabalho e pela nossa velhice, afinal de contas, por toda a nossa existência. Com tudo isto quase que poderíamos dizer que os deuses têm agora a tarefa muito mais facilitada, pois já há na Terra quem faça aquilo que eles faziam.
Usando a mesmíssima lógica da filosofia consumista, e procedendo do mesmo modo como ela parece entender o entrosamento entre o Bem e o Mal, com todas as benesses que a nossa sociedade nos proporciona, poderíamos ser levados a pensar que será para contrabalançar este ambiente paradisíaco em que supostamente vivemos que alguns dos filhos desta mesma sociedade são atraídos pela violência e pela marginalidade.
Em suma, este aparente clima de abundância e facilidade poderá ser perigoso se ele nos distrair do encontro com o nosso mais profundo processo interior, ou seja, se nos afastar da «nossa Lua» — aquela que temos no nosso horóscopo de nascimento. Se assim for, poderemos ser levados, por exemplo, a comprar o detergente que protege esquecendo a nossa capacidade de proteger, de sermos nós próprios os agentes da protecção. Por outras palavras, seremos levados a comprar algo para oferecer como prova de amor — processo solar — em vez de simplesmente dar amor — processo lunar.
O Sol e a Lua, os dois universos opostos e complementares
Se, para a Astrologia, o Sol tem a ver com a nossa imagem exterior, com aquilo que nós mostramos aos outros, a Lua está relacionada com aquilo que nós somos por dentro, aquilo que é a nossa estrutura e a nossa fonte de segurança. Ela convida-nos a conhecermos o nosso interior, as nossas emoções, os nossos instintos, a saber aquilo que somos por dentro de modo a integrarmos esses valores.
A Lua está mais relacionada com o que é anónimo, ao passo que o Sol, seu elemento oposto e complementar, é símbolo da individualidade, daquilo que tem identidade própria.
Enquanto que o Sol é luminoso e fulgurante, a Lua é discreta e enigmática, ela simboliza a intimidade. A senhora da noite está directamente relacionada com o saber empírico, o saber da experiência, que se apoia no tempo, no passado, com aquilo que se passa de geração em geração.
Para a Astrologia a simbologia da Lua também está directamente ligada à função do ventre materno relativamente ao embrião-, ele guarda, protege, alimenta o novo ser. A Lua é pois a estrutura e o habitáculo que suporta e antecede o nascimento. O mundo lunar é silencioso e aconchegante, imprime tranquilidade, harmonia, paciência e proximidade. Ele remete-nos para o mundo interior, da fantasia, da imaginação.
Projectando-nos no passado, a Lua pode fazer-nos reviver situações como mamar, estar ao colo, ser embalados, ser acariciados no berço, ou mesmo regressar ao abrigo das águas tépidas do útero materno.
Traduzindo toda esta atmosfera de paz e de suavidade, se porventura a Lua de um dado horóscopo de nascimento apresentar grandes conflitos com os outros planetas, então ela pode perder algumas destas características de harmonia podendo surgir sinais de ansiedade, isolamento, secura ou frustração. Sendo corrompidos os valores que compõem a sua natureza original serão perturbados elementos como a casa, a maternidade, a privacidade e passaremos a ter sinais da presença de impulsividade, de tensões emocionais, de conflitos familiares.
O nosso dia-a-dia lunar
As características que a Astrologia atribui à Lua manifestam-se não só em termos da natureza psicológica do ser humano, como também na sua vivência quotidiana: são «expressões lunares» aquelas ocupações do dia-a-dia que se fazem em casa tais como estender a roupa ou cozinhar. São tarefas que estão embebidas nos nossos hábitos, são realizadas de um modo quase automático. São sobretudo lunares aqueles pequenos gestos instintivos (a Lua rege o instinto) que se aprendem quando alguém da nossa família os executa, como sacudir as migalhas da mesa, esticar a roupa antes de a pendurar na corda, a forma de a dobrar ao colocá-la no cesto da roupa lavada, ou ainda o passar o lava-louças por água depois de o usar. São tudo gestos aparentemente sem significado, à primeira vista pouco importantes, mas que ajudam a criar a tal estrutura lunar, a base de apoio emocional que é tão característica da essência feminina. São gestos anónimos, repetitivos, ancestrais, que passam de geração em geração, que não são propriamente característicos de um ser mas de uma colectividade, que não têm uma identidade individual (a Lua é oposta e complementar ao Sol que, ele sim, tem a ver com a identidade).
São trabalhos feitos pelas mulheres (e por alguns homens, naturalmente) de todo o mundo, e que fazem parte de um saber antigo, enraizado em todos nós, mas um saber discreto, subtil e, sobretudo, silencioso. Silencioso como a noite... Reino da Lua.
[...] Embora seja sempre difícil de estabelecer uma ordem absolutamente justa nos agradecimentos em função do contributo de cada pessoa, queria agradecer em primeiro lugar à minha mãe a sua pronta disponibilidade e empenho. O Juha Palonem continua a ser um elemento indispensável na realização do trabalho. A Maria João Paixão, o meu filho Ricardo e a Ana Rita Chaínho foram colaboradores preciosos na sua realização. Os meus agradecimentos ao editor e à sua equipa de produção, fotocomposição, revisão, impressão e distribuição que contribuíram para que o livro chegasse até si. Cabe um lugar especial aos meus alunos, pois para além da amizade e da cumplicidade que nos une, é através do frequente convívio com eles que tenho a alegria de redescobrir, vezes sem conta e com grande paixão, a importância desta verdadeira filosofia de vida que é a Astrologia.
Paulo Cardoso